CROLAR 3_2 (2014)

 

Sandra Soler Castillo (2013)

Usted ya en la universidad y no saber escribir. Escritura y poder en la universidad


Bogotá: Universidad Distrital Francisco José de Caldas, 146 p.

 

Resenhado por Luanda Sito

Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas


 

“Você já na universidade e não saber escrever” soa como uma afirmação trivial, que poderia ser dita por professores em corredores de diversas universidades de diferentes países. Inclusive você, leitor, poderá já ter dito isso. O diferencial na postura de Soler, com a discussão proposta no livro “Usted ya en la universidad y no saber escribir. Escritura y poder en la universidad” é questionar essa asserção com a qual tão facilmente nós poderíamos estar de acordo. Para entender o impacto desse discurso na formação universitária, a pesquisadora aproxima-se da perspectiva de estudantes e, para isso, escolhe escutar de maneira atenta a jovens que ingressaram em uma universidade pública colombiana por meio de política de ação afirmativa. Portanto, seu enfoque centra-se nas vozes de universitários que advêm de grupos historicamente excluídos do ensino superior.

 

A obra de Soler apresenta, em quatro capítulos, os resultados finais da pesquisa “A escrita acadêmica em contexto de bilinguismo e interculturalidade. Um estudo de caso na Universidade Distrital”1 , realizada em Bogotá, Colômbia. A temática das assimetrias é indicada desde a introdução, com a epígrafe do livro “Histórias locais, desenhos globais”, de Walter Mignolo, retomada pela autora porque põe “sobre a mesa o tema da escrita como uma das primeiras formas de exclusão na América”2 (11). Neste capítulo, situa e justifica o estudo, revelando um diálogo com os estudos descoloniais e uma preocupação em ouvir as “vozes do sul”. Seu propósito é contribuir para a elaboração teórica da noção de escrita acadêmica e fomentar aportes para formulação de políticas educativas nacionais que não desconsiderem a realidade complexa que envolve o tema. Ao adotar essa dimensão da escrita, a autora alinha-se a estudos críticos da linguagem e busca alternativas para transformação de realidades desiguais.

 

Na introdução do livro, a autora define a escrita acadêmica como eixo principal da obra, a partir da perspectiva teórica dos estudos de letramento acadêmico, o que se concretiza quando desloca sua pergunta de pesquisa de uma preocupação com o chamado “fracasso” dos estudantes para buscar compreender as maneiras pelas quais eles se apropriam das formas de ler e escrever na universidade, assim como descrever as implicações para suas formas de ser e de usar a linguagem nesse contexto. Dessa maneira, considero que o livro contribui teórica e empiricamente para aprofundar as reflexões sobre as formas de manutenção de assimetrias na produção de conhecimento, a partir de uma abordagem discursiva, nas dimensões de raça, etnia e regiões, produzidas e legitimadas nos processos de formação universitária.

 

O uso da escrita acadêmica é foco de pesquisa em diferentes tradições de estudo e se expandiu na última década no contexto latino-americano em duas grandes vertentes: a alfabetização acadêmica e os estudos de letramento acadêmico. Embora, para alguns pesquisadores, ambos os termos nomeiem o mesmo campo teórico, para a pesquisadora Carlino (2013)3 convém distinguir os significados dos dois termos. Para ela, enquanto a “alfabetização acadêmica” está orientada para o fazer educativo, o “letramento acadêmico” enfoca um conjunto de práticas culturais em torno do uso de textos. Essa distinção também é reiterada pela pesquisadora Zavala (2013)4, por entender que ambos os termos se referem a conceitos que possuem objetos de pesquisa diferentes, logo se trata de categorias, problemas teóricos e apostas metodológicas diferenciados, ainda que interconectados.

 

Soler apresenta no capítulo 1, “A escrita como objeto de reflexão”5, os pressupostos teóricos do livro em dois grandes eixos: o aporte do campo de letramento acadêmico e as propostas das políticas educativas para interculturalidade. O enlace entre linguagem e discriminação é explorado na seção “Escrita e poder. Uma reflexão para o caso latino-americano”6, na qual a autora traça elementos que evidenciam os vínculos entre escrita e colonialidade. Ainda neste capítulo, discute as estatísticas sobre a desigualdade no sistema educativo na América Latina e conclui o capítulo enfocando o contexto colombiano e delineando um estado da arte do campo no país. Nesse exercício, destaca as pesquisas realizadas pela Rede Nacional de Discussão sobre Leitura e Escrita no Ensino Superior e pela Cátedra da UNESCO para leitura e escrita.

 

No Capítulo 2, “Representações da escrita acadêmica de estudantes afrodescendentes e indígenas da Universidade Distrital”7, suas escolhas metodológicas são expostas detalhadamente, assim como são contextualizados o cenário da pesquisa e sua amostra. A autora também apresenta ao leitor os principais conceitos que utilizará na análise subsequente, entre eles o conceito de “representações sociais”, compreendido como construções simbólicas (individuais ou coletivas). Na perspectiva adotada pela autora, as representações sociais são analisadas a partir de práticas discursivas, porque entendem que é por meio dos discursos que “se criam e manipulam os conhecimentos, as atitudes, as normas, os valores e as ideologias”8 (39). Suas escolhas estão sublinhadas pela Análise Crítica do Discurso, reveladas em seu interesse na forma como poder e abuso de poder se relacionam para (re)produzir discursos dominantes e a estigmatização de alguns grupos. A análise e a discussão dos dados são tratadas nos dois últimos capítulos. No Capítulo 3, a autora articula as narrativas dos 28 universitários – 16 indígenas e 12 afrodescendentes – que participaram da pesquisa, para analisar suas representações em relação a discussões como: a escrita na universidade, a dicotomia entre oralidade e escrita, as funções da escrita, a prática da escrita acadêmica na universidade e o saber sobre a escrita. E conclui o trabalho, no Capítulo 4, destacando elementos tanto para uma reflexão institucional quanto para futuras pesquisas sobre a escrita acadêmica.

 

A síntese da pesquisa em 146 páginas suscita no leitor um desejo por mais considerações analíticas. Um grande número de dados é apresentado, e parece demandar uma discussão mais densa. Ainda assim, a abordagem do trabalho o situa como uma contribuição aos estudos de letramento acadêmico que vêm se desenvolvendo no cenário latino-americano e colombiano, aportando a trabalhos como Zavala e Gaviria (2010)9 e Pérez e Rincón (2013)10, pioneiros no campo.


Este livro – que tem como público-alvo docentes e discentes universitários, pesquisadores do campo da linguagem e da formação universitária ou proponentes de políticas no âmbito acadêmico – pode aportar a novos trabalhos no campo, em especial, por três elementos: i. as escolhas teóricas feitas para contrapor-se ao “discurso do déficit”, ao buscar entender a perspectiva dos sujeitos sobre as práticas de uso da escrita na universidade, ao invés de compará-las com as práticas valorizadas; ii. o trabalho com entrevistas em profundidade e depoimentos para análise das trajetórias dos estudantes; iii. e as conexões entre uso de linguagem e os temas de interculturalidade e discriminação, para entender o impacto das assimetrias do ponto de vista dos universitários. Por esses elementos, a obra traz um novo olhar para abordar uma velha questão, e indica novos caminhos àqueles que querem associar-se a perspectivas críticas que visam à quebra de assimetrias nas formas de produção de conhecimento, tornando visível uma dimensão (muitas vezes esquecida) dos processos de exclusão: os usos da linguagem

 

 

 

1 “La escritura académica en contexto de bilingüismo e interculturalidad. Un estudio de caso en la Universidad Distrital”

2 “sobre la mesa el tema de la escritura como una de las primeras formas de exclusión en América.”

3 Carlino, Paula (2013): “Alfabetización académica diez años después”. Em: Revista Mexicana de Investigación Educativa,18 (57), pp. 355-381.

4 Zavala, Virginia / Córdova, Gavina (org.) (2010): Decir y callar. Lenguaje, equidad y poder en la Universidad peruana. Lima: Editorial de la Pontificia Universidad Católica del Perú.

5 “La escritura como objeto de reflexión”.

6 “Escritura y poder. Una reflexión para el caso latinoamericano”

7 “Representaciones de la escritura académica de estudiantes afrodescendientes e indígenas de la universidad distrital”.

8 “se crean y manipulan los conocimientos, las actitudes, las normas, los valores y las ideologías”.

9 Zavala, Virginia (2013): Literacidad académica, etnografía e interdisciplinariedad: una nueva mirada al objeto de estúdio. Conferência no VI Coloquio de Investigadores en Estudios del Discurso. Universidad Nacional de Quilmes, Quilmes, junho de 2013.

10 Pérez, Mauricio / Rincón, Gloria (org.) (2013): ¿Para qué se lee y se escribe en la universidad colombiana? Un aporte a la consolidación de la cultura académica del país. Bogotá: Editorial Pontifícia Universidad Javeriana.

 

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